Duro exercício, esse, o de envelhecer.

Catarina Bin, uma cliente minha, me falou no escritório, há mais de 15 anos que o verbo que devemos aprender a conjugar é aceitar.

Aceitar, não é se entregar e nada fazer, é entender o processo do envelhecimento, aquele que aprendemos lá nas aulas de biologia.. nascer, crescer, amadurecer, reproduzir e morrer.  Entre o primeiro e o último, viver.

No nosso dia-a-dia, se fizermos algo ou nada fizermos, a vida passará. O que importa é como enfrentar tudo isso. Vamos percebendo que não somos mais jovens, não por nós mesmos, mas pelos outros. Pelos filhos, pelos colegas de trabalho, pela turma da academia. Se formos nos deixar abater ao nos compararmos com os mais jovens, ah, melhor ficar em casa, trancado no escuro….

Os textos abaixo são meus meus preferidos, da escritora Adélia Prado:

A Serenata

Adélia Prado

Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mão incríveis tocar flauta no jardim. Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa. Eu que rejeito e exprobo o que não for natural como sangue e veias descubro que estou chorando todo dia, os cabelos entristecidos, a pele assaltada de indecisão. Quando ele vier, porque é certo que vem, de que modo vou chegar ao balcão sem juventude? A lua, os gerânios e ele serão os mesmos – só a mulher entre as coisas envelhece. De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?

Se este primeiro é um tanto triste, ela se retrata com este abaixo:

A Quem Interessar Possa!
“Erótica é a Alma”
“Todos vamos envelhecer…
Querendo ou não, iremos todos envelhecer. As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar. A imagem no espelho irá se alterar gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos.
A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos. O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a mobília interior: tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior. E, quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte para suportar.
Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história. Que usa a espontaneidade pra ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios. Erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo. Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores.
Aprenda: bisturi algum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio.”

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