À flor da pele

No meio das mesas, vendedores de biquinis, cangas, toalhas e redes, ele apareceu.

Humilde, dirigiu-se ao Igor e pediu, informando antes, que era sem compromisso. Só queria poder apresentar seu trabalho, queria apenas pintar um prato na nossa frente.

Igor permitiu.

Eu fiquei olhando meio de soslaio. Gosto dessa palavra….rs

E ele ajoelhou-se, ali, na areia, um prato cheio de pequenas porções de tinta, à guisa de palheta ou godê e começou a pintar com seus dedos.

A técnica é colocar cor e tirar o desenho, a paisagem. É talento. É sensibilidade. Os detalhes, as flores, as estrelas, os cisnes, a ponte em perspectiva, tudo com os dedos, uns paninhos e um palito de dentes.

As pessoas das mesas ao redor também vão olhando e eu fico cada vez mais constrangida olhando a maneira dele se posicionar. A praia de Crocobeach tem seguranças que ficam monitorando o pessoal que vende e passeia pelas mesas. Ele também ficou ali, olhando a pintura que vai surgindo no meio dos borrões e misturas de cores.

O artista pinta de cabeça baixa, mal olha para nós. Fui ficando emocionada e decidi que o prato ia ser meu.

Pinta, suja os dedos com outra cor, mistura, limpa os dedos na sua camiseta. Vira o prato e faz um detalhe ali, outro acolá. Uma estrela, um coqueiro, as flores. E termina.

Pergunto quanto é o prato. Esperava uns R$ 50,00 no mínimo. O preço, R$ 25,00. Digo, é meu.Igor diz pra mim, se você não comprasse, eu compraria. Magno diz, eu pago.

Ele sorri e pergunta meu nome e do Magno para escrever no prato. Pergunto o dele, Miguel. Ele escreve, coloca Fortaleza/Ce, assina e pede licença para se ausentar para longe de nós para poder passar o verniz em spray e vai em direção ao mar.

Igor repete que se eu não comprasse, compraria. Digo o mesmo. Eu pensei, se eles não comprarem antes, eu compro. Fiquei com vontade de chorar.

Enquanto esperávamos ficamos falando sobre a humildade dele e o talento. E que estávamos emocionados. Eu continuava querendo chorar. Igor disse o mesmo.

Ele voltou, apresentou o trabalho. Perguntei se podia tirar uma foto dele com o prato. Ele agradeceu, sorriu e posou para a foto.

Embalou o prato de forma a poder ir na mala sem borrar, com papelão e durex.

Ensinou-nos a usar lacre de latinha para fazer o ganchinho e pendurar com durepox. Garantiu que não desgruda. Ainda falou que usa muito para consertar sua moto.

E assim, o prato está aqui sem Santos. Ainda não pendurei na parede da cozinha, ao lado do prato de minha mãe. Lugar de honra.

Miguel, um artista no Ceará.

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